Afinal, o que são viroses?

Como pediatra, vejo poucas coisas despertarem tantas reações desconfortáveis quanto o diagnóstico de virose. Os pais levam seus queridos filhos ao pronto socorro com vários sintomas, sofrendo, e recebem um diagnóstico que aparentemente não explica nem resolve nada. “Médico quando não sabe o que é, diz logo que é virose” ou “eu dava logo era um antibiótico e esse menino ficava bom”, são frases que eu ouço com frequência.
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A verdade é que, como médicos, estamos tão familiarizados com os termos que temos a sensação de que todas as pessoas estão familiarizadas também. Então falamos virose quase sempre com certo alívio, querendo dizer “não fiquem tão preocupados, vai passar, não é nada muito grave”. E o que os pacientes escutam é: “eu não sei o que é e estou sem vontade de investigar, vá para casa e tome líquidos”.

Então, o que é virose mesmo?
Existem vários agentes causadores de doenças infecciosas em crianças e adultos. De forma geral, as doenças infecciosas mais comuns são causadas por bactérias (por exemplo, furúnculo), que precisam ser tratadas com antibióticos, ou por vírus (por exemplo, gripe), que não necessitam do uso de antibiótico. Ou seja, os tratamentos são diferentes dependendo do agente causador da doença, não havendo nenhuma utilidade em usar antibióticos em doenças causadas por vírus.

Virose é um termo genérico dado às infecções causadas por vírus que são mais simples e autolimitadas, ou seja, que o organismo consegue resolver sozinho, sem necessidade de um tratamento específico para combater o vírus. Não se aplica o nome de virose aos quadros virais graves, mas àqueles em que se considera que a evolução será positiva, com resolução espontânea.
Algumas doenças virais agudas são bem típicas, com sintomas muito definidos, e só de ouvir a história clínica e examinar o paciente o médico consegue concluir o diagnóstico, como catapora (varicela). Mas em alguns casos, os sintomas são muitos parecidos e englobamos como virose, considerando que aparentemente a causa é benigna, autolimitada e que não vale a pena investigar mais a causa, pois não é possível um tratamento específico.

Porém não ser possível um tratamento específico é muito diferente de dizer que não há nenhum tratamento. Medidas de suporte, como controlar febre, dor, mal estar, hidratação, reavaliação, são muito importantes. Orientar o paciente a evitar a automedicação (especialmente anti-inflamatórios) e retornar ao hospital em caso de sinais de alerta, conforme orientação prévia, são medidas extremamente importantes e salvam vidas.

Também é importante dizer que no início do quadro os sintomas podem ser bastante inespecíficos, como febre e dor no corpo, e só após dois a três dias surgirem outros sintomas que definam o quadro clínico, então a avaliação do pediatra é fundamental para um diagnóstico correto e para identificar presença ou não de complicações. Crianças com febre alta e/ou por mais de dois dias, vômitos ou muito prostradas, devem sempre ser avaliadas pelo médico. E quanto mais novo for o bebê, mais cuidado em relação à avaliação precoce. 

Com o período de chuvas aumenta a disseminação dos vírus, especialmente de quadros respiratórios e gastrointestinais, pois as pessoas ficam mais aglomeradas em locais fechados e, no caso das crianças, coincide com o início do período escolar, fazendo com que as viroses fiquem mais frequentes. As crianças têm um sistema imunológico ainda imaturo, o que as deixa mais suscetíveis às infecções virais, fazendo com que elas tenham quadros mais recorrentes que os adultos, mas quase sempre sem gravidade.

Como medidas de prevenção, vale checar se a vacina de gripe está em dias, não só para as crianças, mas para seus cuidadores também. Evitar aglomerações e ter o hábito de lavar as mãos e o nariz previnem a proliferação dos vírus e ajudam nossas crianças a ficarem mais saudáveis.