MEU FILHO NÃO COME

A queixa “meu filho não come” é uma das mais comuns de qualquer consultório pediátrico. Como alimentar a criança é parte fundamental do cuidado e da sobrevivência, mães, pais e familiares têm grande preocupação e angústia em relação à alimentação das crianças, levando ao pediatra questões sobre a quantidade e a qualidade da alimentação e as consequências disso, tais como baixo peso, baixa estatura e problemas de saúde.
pré-natal
“Não comer” na verdade engloba várias situações diferentes. É impossível abordar neste espaço todas as questões relacionadas a um tema tão complexo como alimentação infantil. Devemos lembrar que alimentar uma criança não diz respeito apenas a fornecer alimentos, mas também a inseri-la no contexto cultural e familiar. A alimentação reflete as relações entre a criança, sua família e o meio em que vive. Portanto, por trás do sintoma da alimentação, muitas vezes há diversas questões mais complexas, emocionais e familiares.

Diante da reclamação de baixa aceitação alimentar o pediatra deve avaliar a criança para saber seus hábitos alimentares, rotinas pessoais e familiares, além de um exame físico completo que permita avaliar se há algum comprometimento de peso e/ou estatura e se há necessidade de investigar com exames complementares. 

Um problema muito comum são as crianças que comem uma quantidade menor do que o que a família imagina ser o necessário, mas que estão com peso e altura normais para idade. Na grande maioria das vezes, existe uma expectativa de que a criança coma uma quantidade grande de comida, desproporcional ao seu tamanho. Nesses casos, esclarecer a família sobre a quantidade adequada de comida para idade e tranquilizar em relação ao ganho de peso e estatura costuma ser suficiente. 

Também observamos muita angústia em relação à redução natural da aceitação alimentar que ocorre com o crescimento da criança. Aquele bebê que antes comia bastante agora cresceu e parece desinteressado, com mais vontade de brincar e explorar o ambiente que comer. A partir de 1 ano, a velocidade de crescimento e ganho de peso diminuem e, com isso, também há menor necessidade calórica. A criança está conquistando cada vez mais sua autonomia e tende a se distrair com mais facilidade dos alimentos, além de expressar preferências por determinados alimentos. Esse é outro caso em que, quando o peso e a estatura estão normais, devemos orientar apenas que a família continue oferecendo alimentos saudáveis e mantenha bons hábitos alimentares, evitando a superalimentação. 

Outras vezes, temos crianças muito seletivas, que só querem comer determinados alimentos e se recusam a experimentar alimentos novos.
A seletividade em algum nível faz parte do desenvolvimento de todas as crianças. As crianças estão desenvolvendo seus gostos, sua autonomia, e a alimentação é uma das áreas em que elas podem opinar. Mas seletividade natural é diferente de oferta única de alimentos. Quando uma criança diz que só come arroz branco é importante saber qual o motivo de não estar sendo oferecido nenhum outro tipo de arroz. Respeitar a seletividade natural é muito diferente de preparar um cardápio guiado pelos gostos da criança. É fundamental planejar uma alimentação para a família que seja nutritiva e variada e continuar oferecendo esta comida para a criança, sem preparo de comida especial. Ou seja, a criança deve receber no prato a comida que tem na casa, em uma quantidade proporcional ao que ela come, sem chantagem e sem drama. E não trocar os alimentos recusados por mamadeiras, biscoitos, iogurtes (ou recompensar quando comeu bem a comida), para não gerar um ciclo em que a criança fica sempre evitando a comida saudável e se enche de calorias, sem resolver suas necessidades nutricionais.

É frequente observar práticas inadequadas de alimentação, ou seja, crianças que só são alimentadas com televisão, tablets, celulares, pessoas correndo atrás da criança para que ela coma, ou forçando, ameaçando... em muitas casas, a hora de comer deixa de ser um prazer e se torna muito desgastante. É preciso compreender a dinâmica de cada família para pensar em uma abordagem que melhore a vida de todos. Certamente o melhor caminho nunca é com maus hábitos alimentares.

Quando os pais trazem a queixa de não comer, em geral esperam soluções milagrosas – um super-estimulante que aumente a fome, que faça a criança comer brócolis, que deixe ele bem gordo e bem grande. Porém para a maior parte dos problemas, a solução passa longe dos suplementos alimentares e muito mais perto das medidas educacionais e mudanças de hábito, o que exige paciência e persistência.

Essas questões devem ser avaliadas em conjunto com o pediatra. Casos mais graves muitas vezes necessitam de intervenção multiprofissional (nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais). Ter apetite e comer bem envolvem não apenas a fome, mas o prazer de comer e bons hábitos.