MEU FILHO NÃO FALA. 
DEVO ME PREOCUPAR?

A queixa “meu filho não fala!” é muito comum no consultório pediátrico, assim como a comparação com outras crianças da mesma idade: “a prima dele fala mais”, “o irmão dele na mesma idade falava bastante” ou “na sala dele da escola ele é o único que não fala”. Muitas vezes os pais já estão angustiados, achando que o desenvolvimento do filho não está adequado quando fazem essa pergunta ao pediatra. E há a pergunta, na maioria das vezes não dita: “meu filho é autista”?

Mas afinal o que é normal no desenvolvimento da linguagem da criança? E o que deve realmente nos preocupar?

meu filho não fala. devo me preocupar?
O desenvolvimento neuropsicomotor é bastante complexo, resultado de inúmeras interações entre a carga genética de cada indivíduo e suas influencias familiares e ambientais. Ainda assim, apesar das variações individuais, existem parâmetros básicos de aquisição esperados para a linguagem e para outros marcos do desenvolvimento para cada idade que devem ser acompanhados pelo pediatra. Essa é uma das maiores importâncias do acompanhamento pediátrico mensal no primeiro ano de vida e regular no segundo ano de vida, para que seja feita a avaliação do desenvolvimento da criança e eventuais atrasos sejam detectados e tratados o mais precocemente possível.

E como se desenvolve a linguagem de uma criança? Desde o nascimento. A partir da interação com sua mãe e outros cuidadores, que começam a interpretar os choros e a direcionar o olhar, a conversar com a criança. Desde muito pequeno, o bebê emite choros e sons que vão sendo interpretados pelos cuidadores. À medida que a criança entende que o seu choro desencadeia uma resposta dos adultos, isso inicia o estabelecimento de uma comunicação. A criança desde muito pequena tem uma clara preferência pela face humana e a habilidade de tentar reproduzir as expressões das pessoas que as rodeiam. Desde 3 ou 4 meses, a criança já emite diversos sons, risos, gargalhadas, gritos, que já são linguagem. O maior estímulo para o desenvolvimento da linguagem nessa fase da vida é conversar com o bebê, olhar nos olhos, dar colo, cantar e brincar. Observamos que por volta dos seis meses já é possível entender alguma pequena sílaba (“ma”, “ba”, “da”), e por volta de 9-10 meses a criança começa a balbuciar duas a três silabas que para alegria da família pode ser interpretado com mamãe, papai, vovó, etc.

A linguagem vai se desenvolvendo em paralelo à interação social e ao interesse pelas brincadeiras, que vão ficando mais complexas, ao entendimento de si mesmo e do outro, até que esse bebê se torna um indivíduo falante. Com 1 ano a criança começa a falar pequenas palavras e já entende o próprio nome. Por volta de 1 ano e meio o bebê já fala pequenas frases e essa fala vai ficando cada vez mais complexa e com mais palavras.

Detectamos risco de autismo quando, além do atraso da fala esperada para idade, existem comprometimentos na interação social e a presença de interesses restritos/ comportamentos repetitivos ou diferentes do esperado para idade ou para a situação.

Nem todo atraso de fala é necessariamente um transtorno do espectro autista. No entanto, qualquer queixa relacionada ao desenvolvimento da criança deve ser levada em consideração. Atrasos em relação ao esperado para a faixa etária não devem ser considerados “é o tempo de cada criança”. Por mais que existam variações individuais, existe uma média adequada para o desenvolvimento infantil e o atraso nas terapias piora muito a recuperação da criança.

A avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor é parte obrigatória da consulta da criança. Além disso, existem questionários padronizados para detecção de crianças em risco para transtorno do espectro autista, que devem ser feitos na consulta, mas também estão disponíveis para os pais na internet (MCHAT). Esses testes não servem para dar diagnostico de autismo, mas para verificar se há algum risco e encaminhar a criança para uma avaliação com especialista.

Caso seja realmente detectado algum atraso, o pediatra pode solicitar avaliação auditiva ou outros exames, conforme necessidade. A mais eficaz das intervenções é sempre a estimulação precoce. Uma vez detectado o atraso, deve-se iniciar fonoaudiologia, terapia ocupacional e demais atendimentos conforme a necessidade da criança. A neuroplasticidade cerebral, ou seja, a capacidade de adaptação cerebral, faz com que a recuperação seja muito melhor quanto mais precoce e adequado seja o estímulo.