POR UMA INFÂNCIA MAIS ATIVA

Já são conhecidos na literatura médica os efeitos benéficos da prática de exercícios físicos em todas as idades. Notadamente na infância e na adolescência, a atividade física favorece o equilíbrio do balanço energético, auxiliando o crescimento físico, o desenvolvimento da massa óssea, do sistema cardiovascular, a regulação do metabolismo, promovendo a saúde. Jovens ativos tendem a se tornar adultos mais ativos, aumentando o gasto energético durante todo o ciclo de vida e com menor probabilidade de desenvolver obesidade e doenças a ela relacionadas na idade adulta. Além disso, uma vida mais ativa promove melhora no desempenho cognitivo, sono, autoestima e bem-estar.

Apesar de todas essas vantagens, grande parte das crianças e jovens brasileiros fazem menos atividade física que o esperado para idade ao longo do dia (considera-se que crianças de 3 a 5 anos devem fazer pelo menos 3 horas de atividade física de qualquer natureza ao longo do dia e que crianças maiores e adolescentes precisam de pelo menos uma hora de atividade física moderada a intensa por dia).

infância mais ativa
Há algumas décadas, nossas crianças e adolescentes eram tão mais ativos que esse assunto nem mesmo seria discutido. Porém, o que se observa atualmente é um declínio progressivo da prática de atividade física nessa faixa etária. Por um lado, temos cidades mais violentas, desestimulando o livre trânsito de crianças nas ruas; por outro lado, uma rotina mais agitada, com mais compromissos e menos tempo de brincar, aliada à disponibilidade aumentada de tecnologia e menores grupos de convivência, favorecendo atividades sedentárias. 

Acrescente-se a isso uma piora nos hábitos alimentares significativa, com oferta cada vez maior de alimentos industrializados, ultraprocessados, e temos um grande aumento na incidência de obesidade entre crianças e adolescentes.

Ser fisicamente ativo todos os dias é importante para a promoção da saúde integral de crianças e adolescentes. É fundamental que as atividades sejam prazerosas e adequadas ao estado individual de crescimento da criança/ adolescente.

Mesmo bebês devem ser incentivados à atividade física, sendo mudados de posição ao longo do dia, colocados no chão, sendo estimulados a buscar objetos e brincar, de acordo com sua faixa etária, sempre sendo observada a segurança do local e supervisionados por um adulto. À medida que as crianças vão adquirindo autonomia, devem ficar livres para correr, saltar, dançar, rolar e brincar. O ideal é brincar ao ar livre, mas crianças são criativas: reduzindo a quantidade de tela (TV, tablet, celular e jogos eletrônicos), elas já se sentem mais estimuladas a gastar energia, mesmo que seja dentro de casa.

Para crianças maiores e adolescentes, as atividades físicas estruturadas (práticas esportivas) podem ser introduzidas, lembrando que o objetivo não é ser competitivo ou campeão no esporte. Inclusive é muito comum que as crianças queiram mudar muitas vezes de modalidade esportiva, o que é interessante, pois aumenta o repertório motor da criança e evita lesões por esforço repetitivo do mesmo grupo muscular. 

Sempre que possível, considerar as preferências das crianças, especialmente para aquelas que estão acima do peso ou que têm alguma limitação física. Impor determinada prática e/ou esporte pode fazer com que elas vivenciem sentimentos de frustração e consequentemente tenham aversão às atividades físicas nas fases subsequentes da vida.

A liberação para prática de atividade física estruturada (esportes) deve ser feita após avaliação do pediatra. Se houver alguma demanda específica ou fator de risco, ele deverá encaminhar para um cardiologista pediátrico ou solicitar exames, se necessário.

Pacientes que apresentem alguma doença prévia devem ser avaliados para adaptar a melhor prática esportiva em cada caso. Para crianças com obesidade, frequentemente vítimas de bullying e sensação de baixa autoestima, o acompanhamento multiprofissional e escolha de uma atividade física adequada favorecem muito a adesão.

Lembramos que ajudar nas atividades domésticas, fazer supermercado, passear com o cachorro, também contam como atividade física. O importante é não ficar parado, apenas recebendo estímulos de forma passiva.
Crianças e jovens seguem o exemplo positivo de familiares que praticam atividades físicas e se sentem muito estimuladas com o apoio familiar. Da mesma forma, o incentivo da escola e dos espaços de convivência das crianças é muito importante para vencer o sedentarismo.

É muito mais fácil tornar crianças mais ativas quando a família compreende a importância da atividade física e está envolvida no processo de mudança de hábitos. Estratégias simples, como tornar o final de semana em família mais ativo e saudável, incluindo caminhadas, brincadeiras com bola, passeios de bicicleta, são táticas baratas e saudáveis. Além de melhorar a saúde de todos, as atividades físicas feitas em conjunto com a família são um bom modo de estreitar os laços afetivos entre seus membros.