A ARTE DE COMER BEM

Comer bem é uma necessidade orgânica e psíquica. Por meio da comida ofertamos a energia necessária para o funcionamento do nosso corpo, os nutrientes, e também afeto, presença, cultura. A alimentação é parte fundamental da nossa vida e grande parte das nossas memórias afetivas está ligada ao que comemos. As crianças estão inseridas neste processo, de forma que não podemos e não devemos pensar na alimentação das crianças desconectada deste contexto familiar e cultural.

Além disso, observamos um número alarmante de doenças crônico degenerativas na idade adulta que tem relação direta com nossos hábitos de vida, sendo a alimentação o mais importante deles. A qualidade, a quantidade e o jeito que comemos tem impacto direto na qualidade da nossa vida.



a arte de comer bem
Por isso, é importante ensinar a comer bem. E o ideal é começar a ensinar a comer desde cedo. O aleitamento materno exclusivo até os seis meses é um facilitador para a introdução alimentar, para a aceitação de sabores variados, e para a regulação do apetite do bebê, através da oferta em livre demanda. Quando o aleitamento materno não é possível, deve-se junto ao pediatra escolher uma fórmula adequada e também observar os sinais de saciedade do bebê e as variações da fome ao longo do dia. Seja no peito ou na mamadeira, a alimentação deve ser atenta, conectada, não distraída, para que o bebê esteja interagindo com a mãe/ cuidador e seja um momento prazeroso.

A introdução alimentar deve ser feita apenas a partir do sexto mês, mesmo em bebês que não são amamentados, respeitando o desenvolvimento da criança, que só a partir dessa idade está preparada para receber outros alimentos que não o leite. A oferta dos alimentos deve ser, desde o início, de alimentos variados, com estímulos de cores, texturas e sabores, com a criança sendo agente ativo do processo, deixando que ela pegue na comida e descubra os alimentos e sempre respeitando a aceitação do bebê.

É natural que inicialmente a aceitação não seja em grande quantidade, pois o bebê ainda está descobrindo o universo da comida. É natural que amasse, passe no corpo, espalhe e por último coloque na boca. É natural que faça careta e cuspa boa parte do que é ofertado. Mais que métodos de alimentação, tão em voga atualmente, o que vale mesmo é uma alimentação amorosa e respeitosa ao bebê, em que ele e sua família se sintam felizes por esse novo momento. Não existe pressa nem quantidades certas de alimento, pois o alimento principal vai continuar por vários meses sendo o aleitamento materno.

Da mesma forma, essa criança deve ser incluída no processo alimentar de sua família, percebendo-se o momento de alimentação como um momento de compartilhar afeto e experiências. Até que, a partir de um ano, a criança já esteja totalmente integrada ao cardápio familiar.

Bebês e crianças maiores necessitam de uma rotina alimentar com horários relativamente estáveis para comer. E também comer à mesa, compartilhando as refeições com seus irmãos, pais e demais familiares, o que gera hábitos saudáveis e boas recordações.

Não há nenhum sentido em comer distraído por tablets e celulares, mesmo que a criança coma uma quantidade maior dessa forma. É muito importante para a vida inteira saber o que estamos comendo e poder decidir quanto e como comemos, assim como saber parar de comer quando estamos cheios, e isso se aprende desde pequeno. Hábitos muito nocivos à saúde e distúrbios alimentares estão relacionados a essa alimentação desatenta, que atrapalha a mastigação e o entendimento sobre os sinais de fome e saciedade.

À medida que o bebê cresce e se desenvolve, é esperado que o apetite diminua um pouco, e que a criança fique com mais vontade de explorar o ambiente que comer. O ideal é manter a oferta de bons alimentos, variados, preparados em casa, não oferecer alimentos ultraprocessados (como biscoitos, iogurtes, salgadinhos) e evitar a criação de maus hábitos alimentares, tais como, oferecer recompensas, fazer com ele seja obrigado a comer o prato inteiro, mesmo sem estar com fome, distrações na hora da comida (como celulares) e, principalmente, dar vários alimentos no intervalo das refeições para compensar o que não comeu, gerando um ciclo vicioso de alimentos muito calóricos, pouco nutritivos.

Também quando se fala ensinar a comer bem, precisamos pensar no exemplo. A família é o gerador dos modelos que a criança vai seguir em termos de alimentação e comportamento com a comida. Portanto, precisamos melhorar a alimentação como um todo, dar exemplo.

Mesmo que na sua casa a alimentação não esteja perfeita, é sempre momento de reavaliar a alimentação de todos os membros da casa e perguntar: o que estamos comendo é saudável para todos? Nossos hábitos são bons? Pois as crianças vão aprender exatamente o que comemos e como comemos. Para a geração que cresceu sem grandes preocupações com alimentação saudável e bombardeada pela indústria alimentar, talvez seja, um grande desafio, mas vale a pena. Aprender a comer bem é um patrimônio para toda a vida.